As emancipações políticas na década de 1940 e a construção de uma periferia: o caso de Duque de Caxiasi
Lucia
Silva - PhD em História
Periferia
é um termo que tem como referência um espaço cuja interpretação
está atrelada a uma noção de hierarquia. Com características
comuns aos demais que são vistos como periferia, enquanto objeto de
análise, exige um estudo de caso, afinal nenhuma periferia é igual
a outra. Metrópole, rede urbana e hierarquia são níveis de
realidades articuladas ao cotidiano e a processos únicos, que juntos
constituem espaços periféricos como o da Baixada Fluminense.
Tanto
a metrópole quanto a periferia nasceram sob o signo do capitalismo,
mas diferente do primeiro termo, cuja imagem era positivada por estar
ligada à modernidade e a uma centralidade em escalas jamais vistas;
a segunda carrega(va) os aspectos negativos e a subalternidade que é
inerente à relação entre os dois espaços.
A
existência da periferia pressupõe a da metrópole e de todas as
contradições que essa relação traz em si. O termo Baixada
Fluminense atualmente serve para designar um conjunto de municípios
que faz parte da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mas como
uma área específica, sub-região, sob a influência da centralidade
da cidade do Rio de Janeiro. Neste sentido, os municípios que
compõem a região têm elementos que são comuns aos demais, caso
contrário não faria parte da região metropolitana, por outro, há
elementos distintos, ao ponto de criar uma identidade que os
diferenciam do restante.
Pode-se
dizer que depende do nível da realidade a ser analisada, pois na
escala do metropolitano apenas reafirma-se as dinâmicas e relações
que se assentam na ilegalidade, desigualdade e violência, atrelados
àquilo que Monte-Mor (1994) denominou de urbanização extensiva.
Neste nível de exame sobressaem o preço da terra,
industrialização-urbanização, autoconstrução e a ausência da
atuação do estado, ou melhor, de um tipo de atuação, tornando
todas as periferias parecidas, características encontradas nos dois
lados da baía de Guanabara. Nada mais certo e....enganador!
Baixada
Fluminense como parte da região metropolitana carrega todos os
atributos de periferia, com o agravante de ser área contígua à
metrópole; ao mesmo tempo em que tem especificidades que
transformaram esse território único em sub-região. Para dar conta
de entender como emerge essa região, tão igual às outras
periferias ao mesmo tempo diferente, elegeu-se o tema das
emancipações que ocorreram em dois contextos sociais distintos, as
das décadas de 1940 e de 1990, distantes no tempo esses movimentos
de separação dos distritos do extenso município de Nova Iguaçu
contraditoriamente reforçaram uma ideia de região.
É
sempre bom lembrar que emancipação se refere a duas esferas
distintas da realidade que se apresentam conjuntamente e associadas,
pois uma está relacionada à fragmentação do território e a outra
à organização do poder político no território. A fragmentação
é a materialização de um novo arranjo de forças políticas e como
tal envolve múltiplos agentes sociais, não só aqueles que
efetivamente se engajaram na separação.
Município
enquanto unidade político administrativa tem existência jurídica
formal que é produto de articulações políticas que representam um
domínio (como soberania) sobre bens e pessoas estabelecidas em um
território. Esse domínio ou controle ocorre em função de uma
identidade territorial que se materializa em leis. A emancipação
representa a quebra desta identidade, já que a submissão ao
conjunto de leis passa a ser questionada. As razões da insatisfação
são muitas, mas que levam a uma crise de representatividade e são
estas, em última instância, que colocam em disputa as forças
políticas. Nem sempre estes embates garantem a emancipação, sendo
necessários arranjos que extrapolam aos interesses dos grupos dos
territórios, já que para que haja uma nova configuração, apoios
externos (contra ou favor da separação) devem ser acionados, sendo
esses determinantes.
Desta
forma, não é possível pensar em emancipação, ou seja, na
constituição de um novo município, sem articular as redes
políticas arregimentada pelos favoráveis ou contrários à
separação. No caso dos municípios da Baixada, o conhecimento
desses contextos políticos é fundamental para o entendimento da
fragmentação do município-região.
O
argumento central deste texto é que a Baixada Fluminense enquanto
região emerge entre os dois momentos da febre das emancipações.
Surge para dar conta de uma unidade que o antigo município-região
estava perdendo com as separações políticas. Sinteticamente,
consideram-se como parte da Baixada apenas os municípios que
pertenceram a Grande Iguaçu, e que o termo integra realidades
próximas, cotidianos similares e cultura/identidade que foram
conformadas no mesmo processo de periferização e de restruturação
econômica ocorrida depois da citricultura.
Entretanto,
este texto apenas priorizará o momento em que o primeiro distrito se
emancipou de Nova Iguaçu na década de 1940, transformando-se em
município de Duque de Caxias. Para tanto, este trabalho será
dividido em duas partes. A primeira procurará apresentar o panorama
político de Nova Iguaçu acentuando a heterogeneidade de atuação
dos diversos grupos locais, a segunda mostrará o jogo político
estadual, ratificando a ideia de que uma força externa foi
fundamental para essa primeira separação: o Amaralismo.
2.
Baixada, tão perto do Rio de Janeiro e tão longe de Niterói!
Baixada
enquanto região constituiu-se no período pós-citricultura, produto
das várias dinâmicas inseridas no processo de periferização, o
que inclusive explica as emancipações. A região viria a se
conformar sob o escombro do município-região de Iguaçu.
O
município de Iguaçu foi criado em 1833, as primeiras emancipações
aconteceriam em 1943 e 47, havendo um interregno de quase 50 anos e
voltando a ter a febre das emancipações nos anos de 1990. Os dois
momentos comportam jogos políticos diferentes, devendo ser entendido
pelos sentidos e forças que foram colocados em jogo em cada momento
da fragmentação e não pelo produto final, que ao fim e ao cabo
significou desmembramento de seus distritos.
Figura
1 - Mapa das Primeiras emancipações de Nova Iguaçu (1943/47)
Fonte:
LACERDA,
2003, p.22
O
primeiro momento, nos anos de 1940, Duque de Caxias, Nilópolis e São
João de Meriti separaram-se do município-região. Essas
emancipações ocorreram no contexto social, político e econômico
do Estado Novo (1939/45), ou sob a influência do mesmo, como no caso
dos dois últimos, já no período da Redemocratização (1945/50).
Dentro da escala da região, ainda que sejam momentos políticos
totalmente diferentes, a ditadura do Estado Novo e o período da
Redemocratização, podem ser vistos como processo único, assim as
emancipações serão pensadas dentro desse processo, em função da
realidade político econômico social local.
Essa
realidade tem na citricultura a sua centralidade. O município-região
era conhecido pela produção e exportação da laranja, mas em 1940,
auge da exportação, somente 30% de seu território era ocupado pela
pomicultura, entretanto, era o bastante para garantir aos
citricultores o controle da máquina política municipal. Todos os
dirigentes municipais, tanto o interventor quanto o prefeito eleito
na década de 1930 eram representantes dessa classe.
O
município-região além dos 30% ocupados pela citricultura tinha uma
vasta área ocupada pela serra do Tinguá, de propriedade do governo
federal (“as águas do Rio d’Ouro”), também cerca de 30%, o
restante era ocupado urbanamente, ainda que disperso e/ou
fragmentado; sua população era majoritariamente urbana, pois
segundo o censo de 1940, 70% de seus habitantes viviam em áreas
urbanas ou suburbanas (nomenclatura do censo) contra 30% da zona
rural. Administrativamente, Nova Iguaçu estava dividido em
Distrito-sede (com Mesquita), Belford Roxo (parte de Imbariê e
Japeri), Bonfim (Santana das Palmeiras e parte de Japeri), Cava (Cava
e Xerem), Caxias, Estrela (parte de Imbariê-Xerem), Meriti,
Nilópolis e Queimados.
A
realidade heterogênea do município-região revelava uma difícil
composição política em escala local, na medida em que os
citricultores controlavam a máquina administrativa municipal, o que
significava a atuação da prefeitura em prol do melhoramento da
estrutura produtiva da pomicultura, afinal as “laranjas valiam
ouro”, embora o distrito com maior contingente populacional fosse o
de Meriti (atual São João de Meriti) com quase 40 mil habitantes.
Os
três distritos que se separariam de Nova Iguaçu, juntos
representavam 60% da população do município em 1940.
Politicamente, essas localidades, desde os anos 1920, elegiam
vereadores que lutavam para garantir os serviços e equipamentos
urbanos que não havia nos distritos, já recortados de loteamentos.
Esses empreendimentos imobiliários tinham ampla propaganda nos
jornais cariocas do período e apresentava como vantagem apenas a
proximidade das estações das linhas férreas que cortavam a região.
O
aumento da população nesses distritos não tirou o controle
político de antigas famílias que antes dominavam as localidades e
que se articulavam com o distrito sede, no caso de Caxias eram os
grupos ligados às famílias de Capitão Luís Antônio dos Santos,
de Coronel Macieira, de Coronel José Eliseu Alvarenga Freire, e de
Coronel João Telles Bittencourt, os dois últimos grandes
proprietários de terras que também atuavam no ramo de olaria e no
comércio local, ao ponto de “o prestígio da família Telles
Bittencourt era tão grande que sua residência acolhia as
autoridades em visita pela região e chegou até a hospedar o
presidente Washington Luís em 1928”. (FERREIRA, 2012, p.26)
O
aumento da população permitiu a inserção de um novo grupo
político nas localidades, um exemplo é a União Popular Caxiense
(UPC), fundada em 1933, atuando em prol de melhoramento urbano em
Caxias. Faltam pesquisas, mas preliminarmente pode-se dizer que eram
pessoas de diversos ramos do comércio e que também tinham
propriedades, e apesar de contar com a imprensa local, não tinham o
poder que o “homem da capa preta” teria no distrito, por exemplo.
Tenório Cavalcanti era o principal personagem político de Caxias,
pois diferente dos membros da UPC, era casado com a filha do Coronel
Telles Bittencourt e afinado politicamente com Getúlio de Moura,
representante dos citricultores.
Nilópolis
também tinha a sua associação, o Bloco de Progresso de Nilópolis,
e foi responsável por inúmeras benfeitorias na localidade. As duas
associações têm as mesmas características: foram agremiações
organizadas e dirigidas pelos moradores mais prósperos das
comunidades, que sabiam utilizar os espaços formais da política,
como partidos e políticos influentes, atuando em prol dos
melhoramentos. Tornaram-se interlocutores privilegiados entre a
população e a prefeitura de Nova Iguaçu, barganhando e cobrando os
serviços inexistentes nas localidades. Foi com o auxílio dessas
associações que os povoamentos se transformaram em distritos,
elegeram vereadores e conduziram o processo de emancipação na
década de 1940.
O
que o censo de 1940 ratificava era a existência de uma população
urbana descolada da citricultura, que vivia em localidades sem
investimentos da prefeitura de Nova Iguaçu em infraestrutura, e que
o ambiente urbano e a crescente migração criaram oportunidades de
negócios e incorporaram novas lideranças à vida política e
econômica dos distritos.
Enquanto
o grupo político hegemônico formado pelos citricultores
apresentava-se como um bloco e agia como tal dentro prefeitura e da
câmara (em seus poucos momentos de existência nos anos 1930), os
outros grupos, ou pelo menos algumas lideranças articulavam-se com
as antigas, vide Tenório. Desta forma, ainda que a realidade das
franjas urbanas destoasse da do distrito sede, os representantes
locais não tinham força política para efetivar uma emancipação.
A
grande maioria da população nesses distritos, atraídas pela
atividade industrial e comercial da cidade do Rio de Janeiro, vivia
em loteamento sem infraestrutura, no movimento pendular para a
capital federal. A ocupação nas franjas tornou-se possível, na
medida em que as terras cariocas estavam ficando cada vez mais
valorizadas e os terrenos disponíveis localizados em regiões
distantes do Centro, mas próximos dos trilhos da ferrovia se tornava
uma alternativa para os trabalhadores recém-chegados ao distrito
federal. A ferrovia unia o que administrativamente estava separado em
dois municípios.
Para
o governo federal, o município-região era pensado como “lugar de
apoio/retaguarda” da capital federal em função de sua
proximidade, o que na prática significava controle da rede de
abastecimento de água (Rio D’Ouro), criação de um cinturão
verde e provimento de um estoque de terras para habitação,
principalmente pelo transporte acessível, no caso o trem. A ocupação
das franjas dos dois municípios estava totalmente integrada à
dinâmica econômica do Distrito Federal, mas não de Nova Iguaçu.
O
grande município-região chegava à década de 1940 com um panorama
político complexo, pois se internamente havia disputa, externamente
recebia também a atuação seletiva de programas estaduais e
federais, que ao fim e ao cabo modificavam as dinâmicas internas,
exemplos disto são a construção das cidades dos meninos e dos
motores, comissão de saneamento e eletrificação da Central do
Brasil pelo governo federal e estabelecimento do Amaralismo no âmbito
estadual.
A
cidade das meninas que se transformou em cidade dos meninos foi
produto da atuação da assistência social do governo federal na
construção de um orfanato-escola de grandes proporções em Caxias.
Esse complexo educacional composto de grandes pavilhões de escolas e
moradias, destinado a abrigar crianças pobres, ocupava 19 km2
e fazia parte do Núcleo Colonial São Bento, outro projeto do
governo federal articulado ao saneamento da região.
Núcleo
São Bento, cidade dos meninos e saneamento foram investimentos do
governo federal que causaram impacto territorial e social no distrito
de Caxias; territorial pelo porte dos projetos; só a cidade dos
meninos previa 40 pavilhões/instalações para 50 crianças em cada
uma, enquanto o Núcleo São Bento previa 3 glebas de 300 lotes
agrícolas, terras que surgiram com a drenagem; afinal foram
liberadas 1.516 km2
de terras que antes estavam encharcadas (SOUTO, 2016, p.111). Já o
impacto social deve-se a quantidade de pessoas que se descolocaram
para região em função desses projetos, voltados inicialmente para
a agricultura.
Já
a cidade dos motores, onde só funcionou a Fábrica Nacional de
Motores (FNM), leia-se de carros, efetivamente previa um núcleo
urbano com várias unidades fabris, desde motores de avião até de
eletrodomésticos. Esse núcleo juntamente com eletrificação da
ferrovia Central do Brasil até Nova Iguaçu e a instituição da
passagem única dos trens representou a atuação do poder público
federal incentivando o dueto industrialização-urbanização. A
falta de definição do perfil de intervenção nas políticas do
governo federal corroborou com a própria dinâmica interna, que
oscilava entre a cultura da laranja voltada para exportação e a
urbanização como periferização. Economias locais diferentes que
exigiam medidas distintas, mas que de certa forma, foram contempladas
pela União.
A
indefinição foi mantida pelas políticas federais e pela atuação
dos grupos dominantes locais; lembrando que os citricultores ainda
que tivessem o controle da “administração municipal”
enfrentavam a oposição dos segmentos sociais distantes das demandas
produzidas pela economia da laranja. Internamente, a política local
era heterogênea e essa heterogeneidade acabou sendo reforçada pela
atuação do governo federal, mantendo o grande município em um
impasse quanto ao seu perfil, embora todos os projetos implantados
consolidava a área como região subalterna ao distrito federal, mas
não definiam quais seriam as dinâmicas sociais-econômicas
dominantes, exigindo então uma terceira força política para
determiná-la, essa força veio da esfera intermediária, do governo
do estado do Rio de Janeiro.
O
grande município-região chegava a década de 1940 como retaguarda
da cidade do Rio de Janeiro dividido entre a possibilidade de
consolidar-se como um grande cinturão verde da metrópole, seja como
grande exportador de laranja ou produtor de hortifrutigranjeiros,
vide o Núcleo Colonial São Bento e o saneamento, cujo discurso
girava em torno da expansão das terras agricultáveis; ou como
periferia urbana, fruto do grande estoque de terra produzido pelo
saneamento, que poderia também ser utilizado para habitação,
principalmente se articulado ao preço da passagem de trem barata.
Foi neste contexto de impasse em que deu a atuação do Comandante e
ocorreram as primeiras emancipações de Nova Iguaçu
2.
A atuação do Comandante nas emancipações
Ernani
do Amaral Peixoto assumiu o governo do Rio de Janeiro um dia após a
instituição do Estado Novo, em 11 de novembro de 1937, foi
escolhido um pouco antes do golpe porque se adequava ao perfil
estabelecido pelo Código dos Interventores de 1931, a da
neutralidade política. Embora Amaral Peixoto fosse fluminense não
tinha rede política no estado e tinha as características desejadas
por Getúlio Vargas, seu sogro, que buscava nomear para as
interventorias estaduais jovens militares de “concepções
modernizantes” que reestruturariam o campo político antes dominado
pelas antigas oligarquias, no caso do Rio, ainda resquício do
Nilismo,
grupo
político formado em torno de Nilo Peçanha.
O
Comandante, apelido ganho em função de sua origem na marinha,
governou o estado do Rio durante todo o Estado Novo, renunciando em
29 de outubro de 1945. Em grandes linhas, sua gestão foi voltada
para a reestruturação do campo político no estado, e isto se deu
com a construção da nova máquina política. Segundo Pantoja
(1992), durante o Estado Novo seriam lançadas as bases do
pessedismo1
no estado com o auxílio da nova estrutura administrativa estadual e
realinhamento de forças políticas sob o seu controle, denominado
então de Amaralismo.
Ainda
que representasse o governo federal, afinal foi alçado ao posto como
interventor do governo federal, tinha a incumbência de reorganizar
as forças políticas regionais e modernizar a estrutura produtiva do
estado, mas no cargo procurou formar e consolidar a sua rede
política. Foi nesse contexto político, de ditadura e de criação
do Amaralismo, que deve ser entendida a emancipação de Duque de
Caxias.
O
interventor assumiu sem base política e uma das formas de construir
esse apoio foi a distribuição de cargos, como por exemplo, os de
delegados de polícia. Em nome da modernização da administração
pública, o governador utilizava nomeações como instrumento de
barganha política, pois o que deveria ser ação de racionalização
da máquina estatal, só serviu como objeto de permuta política para
ratificar as ações do interventor, cumprindo assim o papel de
fiador dos compromissos políticos dos grupos locais com o
governador.
No
caso de Nova Iguaçu havia um complexo quadro político que o
Comandante soube se movimentar, pois era da citricultura que vinha
grande parte dos recursos do estado quando o interventor foi alçado
ao cargo, e desde 1930 nas franjas do município-região novos grupos
políticos manifestavam interesses políticos diversos do distrito
sede. Na esfera estadual o político Manoel Reis representava os
interesses da região, antes alinhado com Nilo Peçanha e depois com
Vargas, inclusive indicando o delegado Arruda Negreiros de São Joa
de Meriti à prefeitura de Nova Iguaçu em 1931.
Getúlio
de Moura, já liderança dos citricultores, indicou e garantiu a
eleição de Xavier da Silveira como prefeito em 1936, ao mesmo tempo
em que tinha o apoio de Tenório, representante da franja urbana. É
por isto que não se veria o “homem da capa preta” no processo de
emancipação de Caxias. Pelo jogo político de Amaral Peixoto;
Getúlio e Tenório eram representantes do grupo estabelecido na
prefeitura municipal, ainda que representassem interesses políticos
diferentes, portanto, visto como pertencentes dos antigos grupos
políticos que deveriam ser neutralizados.
O
Amaralismo se consolidou através da diminuição da influência das
antigas lideranças e do estabelecimento de novos atores no cenário
político, estes ligados ao governador-interventor. A exigência
federal de revisão da divisão territorial do país em 1939, e, por
conseguinte do estado, transformou-se em oportunidade para Amaral
Peixoto aumentar a sua rede política com a criação de novos
municípios e colocar seus correligionários nas novas prefeituras. O
distrito de Caxias entrou no mapa político do estado com aquilo que
Ferreira (2012) denominou de “Quarto Momento”, através do
Manifesto de Caxias, justamente no período de constituição da
Comissão Estudos de revisão da organização politica
administrativa do estado.
Desde
1930, com a mudança da placa da estação ferroviária, o distrito
buscava ressaltar sua diferença em relação à sede, a mudança do
nome da estação, de Merity para Caxias, foi considerado o primeiro
momento do processo de emancipação (SIMOES, 2007; FERREIRA, 2012;
SOUTO, 2014). Aproveitando-se da obrigatoriedade da revisão da
divisão territorial, uma década depois, a UPC entregou um manifesto
ao interventor reclamando da atuação da prefeitura de Nova
Iguaçu ao distrito, inclusive chamando-a de “madrasta”.
A
resposta do estado foi a prisão dos signatários do manifesto e o
fechamento do jornal local que apoiava a causa da UPC. Somente com o
início dos trabalhos da revisão da divisão política
administrativa no estado, muito em função do censo de 1940, a
localidade passaria a ser vista pelo interventor como uma peça a ser
utilizada em seu jogo político. Para o que cabe aqui, o evento
mostrou o descontentamento e a união da comunidade local em torno da
emancipação, mas como naquele momento o interventor ainda não
tinha como utilizar esse descontentamento politicamente, os
signatários foram presos, aliás, visto como reação descomunal do
governo ao evento, já que o objetivo do manifesto era de reclamação
e não de separação.
O
cenário político mudaria ao longo de 1943, e ainda não sabemos
exatamente por que, mas o primeiro indício foi a mudança de
prefeito. Ricardo Xavier da Silveira, correligionário de Getúlio de
Moura, pediu demissão em 11 e saiu em 17 de março de 1943, com o
deferimento de Amaral Peixoto. Deixava o executivo municipal depois
de sete anos (sua posse foi em 12/08/1936) para assumir a presidência
da Comissão Central de Frutas do governo federal. Defendia os
interesses dos citricultores em um contexto de bancarrota do setor,
já que a produção caiu vertiginosamente em função das pragas e
da impossibilidade de exportação para o maior mercado consumidor, a
Europa, bloqueado pela Segunda Guerra Mundial. A saída do prefeito
possibilitava uma nova correlação de força, já que Xavier era um
político influente no governo federal, e ainda que fosse amigo do
Comandante, competia com o interventor na esfera federal. Sua saída
também permitiu que o cargo passasse a ser utilizado nas barganhas
políticas.
Com
a revisão da divisão territorial, o pleito da comunidade local e o
enfraquecimento do grupo dominante municipal em função da
bancarrota do setor, permitiu ao interventor colocar dois prefeitos
de sua filiação política, o que na prática aumentou sua
influência na região. A indicação de pessoas sem tradição
política possibilitou utilizar o cargo para consolidar sua
autoridade dentro do estado e garantir a constituição de uma nova
rede política.
Em
Nova Iguaçu foi colocado Bento dos Santos de Almeida, e no novo
município de Duque de Caxias (e não Caxias como era denominado o
distrito) foi indicado Homero Lara, que ficou apenas um ano. A
separação de Caxias desestruturou momentaneamente Nova Iguaçu, mas
o realinhamento dos citricultores ao PSD permitiu que o grupo
voltasse e se mantivesse na política municipal, mas no novo
município esse alinhamento foi mais difícil porque a principal
liderança (Tenório) não se colocou na rede do interventor,
transformando o executivo municipal em cargo rotativo, gerando
instabilidade. Até 1950 passaram pela prefeitura nove prefeitos
indicados2.
No
último dia de 1943 foi criado o município, a emancipação do
distrito de Caxias inauguraria uma nova fase da história da região
com a emergência da Baixada Fluminense.
Considerações
preliminares
A
região que antes era apenas um município chegava ao final do Estado
Novo como dois, embora consolidando apenas uma dinâmica social,
aquela voltada para ocupação urbana sem urbanização, cuja
estética é a dos loteamentos sem infraestrutura. Enquanto
politicamente a região se dividia em unidades diferentes, as
realidades tornavam-se única sob o signo da periferização.
A
emancipação ampliou a força política de Amaral Peixoto, que
conseguiu entre os citricultores de Nova Iguaçu, agora arruinados,
reforçar o seu grupo político, pois não se deve esquecer o papel
que Getúlio Moura desempenharia na região, filiado agora ao PSD. Em
Duque de Caxias o panorama politico foi diferente, visto que Tenório,
antiga liderança não integrou as fileiras do pessedismo. A
instabilidade política foi a principal característica do novo
município.
Ainda
faltam estudos sobre os efeitos das emancipações, mas
preliminarmente é possível afirmar que o grande vitorioso foi
Amaral Peixoto, que conseguiu trazer parte do grupo dominante da
região para a suas fileiras, criando hegemonia no estado, mas o
custo disto foi o enfraquecimento político da região, não só
porque deixava de existir um grupo dominante com interesse próprio,
como a da citricultura, mas, e principalmente, pela existência de
vários municípios, trazendo representações políticas
pulverizadas.
Essa
fragmentação, ainda que materializando uma nova correlação de
força, aquela que se refere a organização do poder político no
território municipal, contraditoriamente passaria a apresentar as
mesmas demandas, já que sem a citricultura, toda a região passaria
a se configurar como cidades dormitórios, dependente da cidade do
Rio. Como periferia, dividida internamente, e sem força política, a
região ficaria na posição de subalternidade no novo jogo político
estadual.
Independente
dessa nova configuração política, milhares de imigrantes chegaram
à região seguindo as vias férreas, atraídos pelos lotes baratos e
sem infraestrutura; sem lastro com a antiga história do antigo
município, fizeram sua tradução e a utilizaram para dar
entendimento a nova realidade que se estabelecia, repleta de
problemas, fruto em grande parte da incapacidade dos políticos
locais de apresentarem conjuntamente suas demandas ao governo
estadual. Essa fragmentação política teria efeitos devastadores na
vida dessa população, ao mesmo tempo em que potencializaria a
emergência da Baixada Fluminense enquanto região.
Publicado na Revista Mosaico da USS
Publicado na Revista Mosaico da USS
Referência
Bibliográfica
FERREIRA,
L de P. Próxima parada, Caxias!. Nova Iguaçu: UFRRJ, 2012
(monografia de história).
LACERDA,
S J da S. A emancipação política do município de Duque de Caxias
(uma tentativa de compreensão) In Pilares da História, vol.
2, n 3, 2003, pp 9-27
MONTE-MÓR
R L M Urbanização
extensiva e lógicas de povoamento: um olhar ambiental.
In SANTOS, M et. al. (orgs.) Território,
globalização e fragmentação.
São Paulo: Hucitec/Anpur, 1994.
SIMÕES,
R. Cidade
Estilhaçada:
restruturação econômica e emancipações municipais na Baixada
Fluminense. Mesquita: Entorno, 2007.
SOUTO,
A B C. Tabuleiro de Damas para um Jogo de Xadrez: Emancipação
de Duque de Caxias vista por Nova Iguaçu através do Correio da
Lavoura. Nova Iguaçu: UFRRJ, 2014, (monografia de história).
_______.
As Comissões Federais Saneamento na Baixada Fluminense (1910/1933).
Seropédica: UFRRJ, 2016 (dissertação em Desenvolvimento
Territorial e Políticas Públicas).
1
Pessedismo ou Amarelismo é denominação partidária do PSD sob a
chefia de Amaral Peixoto no estado do Rio de Janeiro.
2 Homero
Lara (1/1/44 a 10/9/44), Heitor Luiz do Amaral Gurgel (11/9/44 a
1/8/45), Antônio Cavalcante Rino (2/8/45 a 2/9/45), Amaral Gurgel
(3/9/45 a 9/11/45), Jorge Diniz Santiago (10/11/45 a 22/3/46) Gastão
Glicério Gouveia Reis (25/3/46 a 18/10/46), José dos Campos
Manhães (18/ 10/46 a 13/3/47), José Rangel (19/3/47 a 31/3/47)
Custódio Rocha Maia (1/4/47 a 30/7/47) e Scipião da S Carvalho
(1/8/47 a 28/9/47).
i
Professora
Associada da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, campus
Nova Iguaçu.

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