Entrevistamos o historiador Andre de Lemos Freixo (UFOP)
Entrevistamos o historiador Andre de Lemos Freixo, professor do departamento de história da Universidade Federal de Ouro Preto, a UFOP. Freixo presenteou o Café História e seus leitores com um riquíssimo e estimulante debate sobre teoria(s) da história. Confira!
André de Lemos Freixo é professor da UFOP. Foto: NEHM-Divulgação.
Bruno Leal: Professor, você participou, recentemente, no Rio de Janeiro, de um Fórum de Teoria e história da Historiografia. Conte-nos um pouco sobre esse encontro. Quais são as discussões que mais tem mobilizando aqueles que estudam teoria e historiografia?
Andre de Lemos Freixo: Primeiramente, gostaria de agradecer ao Café História e, em particular, a você, Bruno Leal, pelo convite para esta entrevista, que muito me honra com esta oportunidade de falar um pouco do trabalho que desenvolvo.
Sim, participei da edição do dia 13 de novembro de 2015 do Fórum. É uma iniciativa dos professores dos setores de Teoria das universidades públicas do Estado do Rio. Fui debatedor, ao lado do Felipe Charbel (UFRJ), de um texto do Arthur Ávila (UFRGS) sobre o problema da disciplinarização da história (ou certa desmedida nesse sentido) a partir das considerações do Arthur da concepção de “passados práticos” de Hayden White. O debate foi bastante intenso e rigoroso, como tem de ser, e foi muito positivo. Nossa discussão passou por temas atuais, como a falta de preparo e, na realidade, o quase desinteresse generalizado por reflexões teóricas no interior de nossa historiografia, que parece cada vez mais inclinada a um empirismo cego, salvo algumas boas exceções; a problemática Base Nacional Comum (BNCC) do MEC e sua falta de perspectiva teórica – como diz um colega meu da UFOP, o Valdei Lopes de Araújo, ela parece ter sido escrita por um contemporâneo de Karl F. P. von Martius; a importância da reflexão e qualificação dos debates sobre ética (que nada têm a ver com doutrinação e moralismo) e como isso tem se tornado cada vez mais importante entre os historiadores; entre outros pontos.
Sobre os debates em Teoria da História, varia muitíssimo. Do modo como vejo, teoria não pode ser vista apenas como um campo de pesquisa no qual há especialistas – que fariam as vezes de serem os “nerds” da historiografia. Há teoria em tudo o que qualquer historiador ou historiadora faz, independentemente de ele ou ela enfrentar tais debates seriamente. Essa talvez seja uma ilusão de ótica que a setorialidade dos departamentos de história promove. Não apenas estes, claro, mas, em geral, departamentos de história são separados por setores, entre períodos históricos e ramos de especialidades. Um autor que eu tenho lido ultimamente, Eelco Runia, provocativamente afirmou em um de seus livros recentes (Moved by the past: Discontinuity and Historical Mutation, 2014) que, em geral, “historiadores não pensam”. O ponto dele era exatamente esse: formarmos historiadores que, por ignorarem, ou mesmo desconsiderarem a dimensão teórica do que fazem, perigam, muitas vezes, tornarem-se meros reprodutores e/ou consumidores de textos. O perigo disso parece ser a redução do potencial criativo e de reinvenção da historiografia, obcecada com a autorreprodução, mantendo seus trabalhos conservadoramente ancorados em formatos “tradicionais” (monografias, artigos científicos etc.), apoiados sobre narrativas descritivas nas quais a empiria acaba assumindo o papel de “falar por si mesma”, em nome de um rigor que me parece totalmente deslocado – como em noções de objetividade e ciência dignas do século XIX.
Para Jörn Rüsen, por exemplo, a teoria da história apreende os fatores determinantes do conhecimento histórico. Aqueles que delimitam o campo inteiro da pesquisa histórica e da historiografia. Identificá-los todos e demonstrar sua interdependência sistemática é o que seu projeto teórico almeja. Um sistema dinâmico que o autor assevera ser necessário saber articular, uma “matriz disciplinar”, que se caracteriza, no seu entendimento, pelo envolvimento circular de cinco elementos fundamentais: ideias, métodos, formas, funções e interesses. Segundo ele, essa matriz é uma formulação conceitual (teórica), mas subjaz à racionalidade que ele diz estar na base de toda instituição de sentido histórico. Assim, teoria da história é aqui compreendida como elaboração de uma reflexão do sujeito do conhecimento sobre si mesmo e sua operação enquanto produção de conhecimento científico. Assim, a teoria da história acontece como autorreflexão incessante do pensamento histórico: que antecede (torna possível), ultrapassa (é intersubjetivo) e, necessariamente, atravessa de uma ponta a outra o trabalho histórico.
Para Allan Megill, teoria da história não é mero adereço (ou apêndice) ao trabalho empírico, mas o próprio âmbito reflexivo que constitui e torna exequível e reconhecível a pesquisa e a escrita como sendo historiográficas a partir da reflexão sobre princípios, conceitos, procedimentos, estratégias e funções daquilo que fazem os historiadores quando fazem história buscando, com isso, compreender criticamente tudo o que está envolvido em tal operação. Mas isso tudo, evidentemente, dentro de um protocolo que o próprio Megill chama de “epistemologicamente são”. Não precisamos ficar atados a ele, evidentemente. Pode-se acrescer a isto tudo, que as reflexões de caráter metahistórico também são fundamentais para pensarmos não somente o que “é” a historiografia, quais suas especificidades, mas também o que ela foi e, mais ainda, o que pode ser. Qual nosso lugar no mundo de hoje? Qual a nossa contribuição? A historiografia existe apenas como forma de legitimidade científica, como espécie de guardiã da razão e da consciência histórica? Até onde vai o “controle” dos procedimentos envolvidos no processo de elaboração de um trabalho historiográfico? E sua recepção é igualmente controlável? Entre as muitas formas de escrita da história hoje disponíveis, os historiadores profissionais são apenas mais um formato disponível. Ainda há procura por passado e história, mas os historiadores são menos convocados a participarem da arena pública? Por que? Qual o futuro da especialização? Entre outras.
Com história da historiografia acontece algo análogo. Muitos colegas acham que história da historiografia é “balanço historiográfico”, ou apenas uma forma autorreferente (e triunfalista) de narrar a história dos historiadores de hoje; um braço da história intelectual, que no fundo “todos fazem”. O que leva muitos colegas a desconfiarem da legitimidade deste ramo de pesquisa, como atividade menor, pois parece prevalecer o velho preconceito positivista que diz que o trabalho dos historiadores é aquele que lida com “documentos de verdade”, documentos de arquivos históricos etc. Não é de todo descabida a crítica ou desconfiança, uma vez que alguns textos de história da historiografia apenas louvam, teleologicamente, a “caminhada” ou “evolução” dos historiadores, ou dos formatos historiográficos, ou dos problemas, ou das metodologias, até seu ponto “mais avançado” e, por conseguinte, melhor, mais especializado, mais científico etc. Mas seria ingênuo pensar isso diante das muitas, e excelentes, pesquisas que têm sido produzidas nos últimos quinze anos no Brasil. Assim, penso teoria e filosofia da história muito próximas da história da historiografia, ou como prefiro, uma história da historiografia teoricamente orientada. Por muito tempo, especialmente aqui no Brasil, esses ramos pertenceram a uma espécie de “gueto” acadêmico: excluídos ou subordinados por aqueles que consideram teoria algo inútil, ou que pensam-na apenas como uma “caixinha de ferramentas” (útil apenas se e quando submetida ao trabalho empírico). Felizmente, isso está mudando. Aos poucos, claro, mas há eventos hoje de enorme relevância nacional específicos para os debates teóricos e historiográficos.
O Seminário Brasileiro de História da Historiografia (SNHH), originalmente organizado pelo Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM) e, desde 2009, organizado pela Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia (SBTHH) é um bom exemplo disso. A revista dedicada exclusivamente a esses debates, a História da Historiografia, hoje é Qualis A1 pela avaliação da CAPES. Profissionais brasileiros começam a figurar em eventos internacionais, nos quais teoria e filosofia da história são temáticas centrais. Em agosto de 2016, a Segunda Conferência da Rede Internacional de Teoria da História (INTH) será oferecida pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), numa valiosa parceria entre a SBTHH, o NEHM e a INTH. Os debates mais e mais rigorosos e as perspectivas plurais em termos teóricos enriquecem sobremaneira a nossa historiografia. Cada vez mais há necessidade de compreendermos mais e melhor nossa prática e suas muitas possibilidades, mesmo em termos transnacionais, para sairmos daqueles “becos sem saída”, verdadeiros “pontos péssimos” dos debates teóricos, que deixavam a teoria da história refém de querelas inócuas, como a dos “modernos contra pós-modernos”, que apenas rendiam material para piadas pelos corredores das universidades, nos cursos de humanidades e/ou seus centros acadêmicos.
Bruno Leal: Em seu mestrado, defendido na Universidade Federal do Rio de Janeiro, você estudou um movimento juvenil de orientação sionista-socialista muito importante para a história judaica no Brasil, o Hashomer Hatzair. Como surgiu esse trabalho? Conte-nos um pouco sobre esse movimento e sobre os resultados alcançados nesta pesquisa?
Andre de Lemos Freixo: Minha dissertação foi uma extensão da pesquisa que desenvolvi para minha iniciação científica e cujo resultado foi meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Este TCC surgiu do fascínio que despertou em mim a ideia de um movimento social e político juvenil que aliava de modo orgânico sionismo e socialismo. A temática foi apresentada para mim por Michel Gherman (NIEJ/UFRJ) e Maria Paula Nascimento Araújo (UFRJ), em 2002 ou 2003. Meu objetivo era compreender o movimento juvenil aliava o nacionalismo judaico europeu com o internacionalismo do socialismo no Brasil da década de 1940. Outro aspecto da pesquisa era interrogar como os fundadores desse movimento passaram a conceber seus ideais e o lugar do próprio movimento no mundo de hoje. Um estudo que indagava sobre as relações entre memória e história. No mestrado, meus interesses variaram um pouco mais. Tratou-se de um esforço que, acima de tudo, consolidava meu interesse por análises teóricas e pela história da historiografia.
Esse trabalho teve por escopo dialogar com a historiografia dos judaísmos contemporâneos, especialmente no caso brasileiro. O Hashomer Hatzair, em seus anos de fundação (1945-1948), tornou-se espécie de estudo de caso, e foi pensado em função do Movimento Sionista no Brasil na década de 1940. A história do movimento sionista no Brasil é sui generis. A perseguição aos judeus não era tópica frequente nos discursos destes militantes no Brasil, salvo quando se referiam à Europa. Eu achei isso bastante sintomático, uma vez que a historiografia sobre o assunto é enfática sobre o ódio e a perseguição antissemitas no Brasil. Não que não houvesse preconceitos em nossa sociedade, como aliás, há, e muito, ainda hoje. Aí aparece meu estudo de caso: um movimento juvenil que tinha como uma de suas razões políticas de ser a aliah (a imigração dos jovens para a região da Palestina, para construção do Estado de Israel “com as próprias mãos” em um kibutz) não conseguia enviar seus jovens para a Palestina devido aos seus muitos interesses na sociedade brasileira, como, por exemplo, vida social no país, trabalho, o ingresso no ensino superior (que não era vetado aos judeus – como na Alemanha nazista, por exemplo). Minha argumentação, então, enfatizou que o tratamento historiográfico (a partir da década de 1980) enredou nossa compreensão da presença judaica no Brasil ao problema do antissemitismo. E um antissemitismo estrutural (desde tempos coloniais – com os chamados cristãos novos – aos dias atuais), bastante forte e cerceador da vida e da ação da comunidade judaica no Brasil. O Estado Novo (mas não apenas) foi representado como uma espécie de sucursal do Terceiro Reich nos trópicos. Como nos ensina Peter Novick (The Holocaust in american life, 1999), a hipertrofia da história do Holocausto (a partir da década de 1960) no mundo contemporâneo criou espécie de fio condutor universal para a história de todos os judaísmos capitaneada pela ascensão da direita no Estado de Israel e pela comunidade judaica estadunidense – que anteriormente desprezava a vida em Israel (um Estado de esquerda!). E eu vejo que isso possui relação com a interpretação que nossa historiografia produziu sobre a presença judaica no país.
Na década de 1980, nossos historiadores tiveram um papel importante de crítica às ideologias nos discursos oficiais (e oficiosos) que se tornaram comuns nos 21 anos do Regime Autoritário brasileiro: discursos sobre nação, patriotismo, identidade nacional, civismo, cultura, tradição e patrimônio brasileiros. Estes quase sempre assumiram tom conciliatório, procurando identificar aspectos pouco violentos de nossa sociedade, enfatizando aspectos de miscigenação, da suposta “democracia racial”, da cordialidade brasileira entre outros mitos. Assim, a diferença, os grupos minoritários, as “vozes subalternas” ou dissonantes ganharam o proscênio através de nossa historiografia, o que foi um enorme avanço. É sintomático que o período do Estado Novo (1937-1945), um período de Ditadura, tenha sido o escolhido de grande parte da nossa historiografia na década de 1980, seguido de perto pelo boom de estudos sobre a chamada “Primeira República”. Ao problematizar a apropriação historiográfica do conceito de antissemitismo nesse contexto do caso brasileiro, deve-se levar em conta a importância destes estudos no interior deste movimento de “reescrita” da história do Brasil, na tentativa de apresentar suas muitas faces, algo desconhecidas (ou “mascaradas” pela ideologia oficial), como a de intolerância, dos preconceitos e de nossa violenta história nacional e social. Por outro lado, o debate em minha dissertação também procurou problematizar a questão do “dever de memória” da historiografia especializada como espécie de medicamento para uma sociedade em busca de tratamento para suas feridas recentes. Indaguei sobre o como esse “pharmakon” (para dizer como Paul Ricoeur), a baliza científica que definiria a verdadeira memória histórica e a crítica “definitiva” da ideologia poderia ser ou não empregado a médio ou longo prazo sem produzir sequelas ou tornar mais grave o quadro patológico da sociedade brasileira pós-Ditadura. Não pude deixar de traçar um paralelo entre posturas que defendiam tal imperativo ao mandamento sagrado da lembrança (“Zakhor”, “tu te lembrarás!”) presente na Tora – como bem observou um historiador muito importante para o meu trabalho à época, Yosef H. Yerushalmi. Quer dizer, esse imperativo da memória-verdade, purificada pela via da historiografia-ciência (a crítica da ideologia), poderia se relacionar perfeitamente com a escrita da História que hoje, bem o sabemos, é também um discurso? Deveríamos, enquanto historiadores, transformar a historiografia em um saber doutrinário e normativo, ainda que sob as vestes de ciência, a partir do qual poderíamos extrair lições de moral do passado para condução de nossas vidas aqui e agora? “Nietzschianamente”, se for um remédio, por quanto tempo devemos recorrer a ele? Se os efeitos persistirem, suspendemos seu emprego ou aumentamos a dose? Qual quantidade limite para que este não se configure uma dose letal?
Bruno Leal: Há quem diga que hoje não é mais possível haver sionismo de esquerda. Você concorda com essa afirmação?
Andre de Lemos Freixo: Eu discordo. Quer dizer, radicalismos e generalizações são sempre perigosos. Em geral, essa ideia de que uma coisa não se mistura de jeito nenhum com a outra deriva de algum tipo de radicalismo. O Estado de Israel nasceu como Estado de esquerda, fundamentalmente apoiado pelos kibutzim (que eram assembleias comunais) e pela União Soviética, via Tchecoslováquia, se não engano, que enviou armas e mantimentos para muitos daqueles conflitos iniciais, no final da década de 1940. Hoje, é claro, é tudo muito diferente. Penso ser possível posicionar-se à esquerda em qualquer país do mundo, no qual se goze de um mínimo de liberdade ou mesmo de liberdade quase nenhuma. A Primavera Árabe está aí para comprovar que é possível. Como eu vejo, estar à esquerda em termos políticos significa, entre outras coisas, contestação. Uma constante vigilância crítica do estado de coisas. Espécie de não-conformismo político especialmente diante de políticas públicas injustas, de práticas conservadoras/moralistas ou reacionárias, dos tradicionalismos de ocasião, aos abusos dos poderes instituídos, e imbuído de grande desejo por justiça social e mudanças para o melhor no que tange à inclusão, combate à desigualdade, ampliação e extensão da cidadania plena para uma sociedade mais democrática etc.
No caso de Israel, estar à esquerda significa estar ao lado dos Palestinos em sua causa e contra o Governo de Netanyahu. Claro que esta é minha forma de entender a questão, outros pensam diferente. Há quem pense que ser de esquerda é ser contra o Estado de Israel e contra os judeus – o que significa antissemitismo. Mas, para além do preconceito óbvio, esse tipo de antinomia não tem coerência lógica. Me pergunto se alguém que se identifique com a esquerda, no Brasil de hoje, por exemplo, desejaria que o nosso país fosse varrido do mapa por discordar do modo como o nosso Governo age política e economicamente? Ou como reagiriam alguns destes críticos se alguma nação, distante da nossa, se dissesse favorável ao fim do nosso país e da dizimação do nosso povo, como medida humanitária de dar cabo aos genocídios contra negros, indígenas e/ou mulheres aqui no Brasil? Ou por serem contrários à utilização de força policial altamente militarizada e com armamento de guerra para contenção de manifestações sociais (em defesa do Estado e não da proteção dos cidadãos), ou ocupação de comunidades, nas quais a execução sumária e o uso de tortura são parte do modus operandi cotidiano dessa corporação? Ora, não podemos confundir Sionismo (que em sua matriz nada mais é do que um tipo de nacionalismo, ainda que multifacetado) com ideologia de Estado ou fascismo. Há apropriações ideológicas do Sionismo? Sim, sem dúvida. Mas nem todo sionista é ideologicamente um apóstolo da ocupação e do terrorismo de Estado de Benjamin Netanyahu e seus predecessores. Ser a favor do Estado de Israel (de sua existência real) não significa, necessariamente, ser pró-Likud ou a favor das políticas governamentais e ações militares bárbaras nos territórios ocupados. Há hoje grupos radicais, à esquerda e à direita, que defendem ser necessário varrer Israel do mapa. Defender a existência de Israel é uma questão política tanto quanto a defesa por uma sociedade israelense mais justa e pelo fim das ocupações, da guerra injusta, e do absurdo bloqueio econômico e comercial do Governo israelense aos palestinos. Quem quis exterminar os judeus da Europa (e do mundo) não foi o Nacional-Socialismo? Uma reedição em escala nacional da Solução Final é, para mim, uma medida radical totalitária e inconcebível. Só o pensamento totalitário precisa anular a possibilidade da diversidade, da diferença e do Outro como meio de instituir seu modo de ver as coisas, seu mundo, como regra moral e normativa para todos.
De modo muito sintético, penso que essa impossibilidade, sobre ou se pode “ser” esquerda ou “a favor” do Sionismo, esbarra naquela velha questão da luta contra a ideologia. Paul Ricoeur (em Ideologia e Utopia) dizia ser este um problema entre os críticos da “ideologia”: ideológico é (sempre) o Outro. Desde que o marxismo reivindicou para si estatuto de ciência (com Engels à frente do processo), o conceito de ideologia passou a significar menos uma oposição dialética à práxis (como figura em O Capital) e cada vez mais um contraponto à realidade (que a ciência social marxista daria conta de desvelar em si e para si). Assim, se você diz que algo ou alguém “é” (ou age de modo) ideológico, você estaria a salvo da ideologia, pois fora dela, enquanto crítico da mesma. Postura epistemológica, hoje, muito frágil a meu ver, mas que vigora ainda com muita força em nossa esquerda e, pasme, à direita também. Hoje essa concepção está amplamente difundida no mundo, ao ponto de termos grupos à direita empregando essa exata lógica. No Brasil, temos o “Movimento Escola Sem Partido”, por exemplo: avesso ao marxismo, mas que identifica no mesmo o seu oposto “ideológico”, e não pensa a si mesmo enquanto um movimento ideológico.
À esquerda, o caso da crítica ao Sionismo como sinônimo de ideologia imperialista israelense me parece ser emblemático também, e cria esse tipo de radicalismo. Temos de ter muito cuidado para não simplificar demais as coisas, não essencializar (ou moralizar desmedidamente) posturas políticas. É claro que é possível ser sionista sem se posicionar politicamente à direita. Não estamos falando de essências ou naturezas imutáveis, mas de posturas éticas e políticas. Defender a existência de um país não significa concordar com o modo como seu governo age. Quem defende isso age tão ideologicamente quanto àqueles aos quais critica. Precisamos, isso sim, ampliar o debate. Complexificar nossa compreensão do que está em jogo para todos no Oriente Médio – é muito complexo o quadro geopolítico e ideológico daquela região. Talvez, possamos atualizar o conceito de ideologia ou torná-lo plural: ideologias. Não mais como “mascaramento da verdade e do real”, o que uma “ciência” denunciaria sempre no discurso do “Outro” (o alienado ou o pré-científico); mas como posicionamento ético-político: como engajamento – e, como tal, como responsabilidade (individual e coletiva) – no e para com o nosso mundo, nossa sociedade etc.
Bruno Leal: É verdade. Esse tipo de cuidado é muito importante, sobretudo quando partimos de uma perspectiva historiográfica. Mudando um pouco de assunto, queria agora falar sobre um outro trabalho seu. José Honório Rodrigues foi tema de sua tese de doutorado. Quais foram as principais contribuições deste historiador para a historiografia brasileira no século XX?
Andre de Lemos Freixo: Analisei textos de Rodrigues. Em especial, os textos sobre teoria da história e historiadores brasileiros. Honório Rodrigues foi um autor nacionalista, muito prolífico, com quase 30 livros publicados (alguns traduzidos para o inglês e publicados fora do Brasil) e centenas de artigos publicados entre 1936 e 1986. Faleceu em 1987. Ele pertenceu a uma geração de autores bastante ativos e engajados na renovação e profissionalização dos estudos históricos no Brasil. Sua trajetória intelectual se confunde com as próprias transformações da historiografia brasileira no século XX. Apesar de ser reconhecido como um dos mais importantes historiadores brasileiros por colegas e prestigiosas instituições nos Estados Unidos da América, Inglaterra, México e França, em sua própria terra, na qual escolheu viver, Rodrigues não gozou do mesmo prestígio de outros autores. No entanto, pode e deve figurar ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré, Guerreiro Ramos, Vitor Nunes Leal, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, entre outros, poucos anos mais novos ou velhos que ele. Costuma-se denominar como a geração dos “redescobridores” ou dos “intérpretes” do Brasil, como bem analisou Paulo Alves Júnior.
Mas não digo isso como exercício de monumentalização. Apesar de Rodrigues não ter se tornado um “monumento”, como alguns dos demais, ele se tornou um autor muito significativo para o campo da teoria da história e da história da historiografia aqui no país – especialmente em dois momentos: na década de 1970, quando jovens historiadores assumiam cargos importantes nas universidades paulistas e paulistanas em meio à Ditadura Militar, como foi o caso de José Roberto do Amaral Lapa, Carlos Guilherme Mota e da Raquel Glezer – que defendeu a primeira tese de Doutorado no Brasil em História da Historiografia no Brasil, exatamente com uma tese sobre José Honório Rodrigues – com ele na banca avaliadora! Em um segundo momento, no início do século XXI, com a organização do campo de pesquisa em teoria da história e história da historiografia, ao redor de nomes como Manoel Salgado Guimarães, Temístocles César, Estevão Rezende Martins, Valdei Lopes de Araújo, Sérgio da Mata, entre outros, sua relevância tem sido redimensionada. Esse campo o reconhece como uma espécie de figura pioneira. Mas penso que haja muito mais aí.
Em 1949, Rodrigues publicou Teoria da História do Brasil, no qual apresentou suas apropriações de autores importantes para a historiografia como um todo, alguns mais outros menos conhecidos no Brasil de então: Benedetto Croce, Robin George Collingwood, Friedrich Meinecke, Ernst Troeltsch, Ernst Bernheim, e se dedicou longamente às pesquisas sobre historiadores brasileiros, publicando muito sobre esse assunto. Ele desenvolveu um projeto ambicioso de tornar a história uma ciência no Brasil.
Apesar de todos os esforços em prol da objetividade científica, que foram muito significativos no século XIX, não existia um campo disciplinar, institucionalizado e autônomo no Brasil. Para Rodrigues, como para quase todos os intelectuais das primeiras cinco décadas do século XX, a ciência era uma das balizas que definiam a modernidade. O Brasil, até então, era visto como país “atrasado” em muitos aspectos. Parte desse atraso foi creditado aos problemas sociais (analfabetismo, desigualdade social, miscigenação, desnutrição, altíssima taxa de mortalidade infantil e de baixa expectativa de vida). Nossa modernização precisava, pensava-se à época, superar esses problemas para criar condições de superarmos o tal atraso e modernizarmos o país. As ciências passaram a ser vistas como caminho para isso. Uma verdadeira guerra ao positivismo foi lançada. Grosso modo, no positivismo, as abstrações, as ideias e as “teorias” deveriam ser formuladas antes de encontrar suas concretizações. Foi a grande onda de importações de teorias e projetos de toda sorte para modernizar o Brasil. E a ideia de ciência que passou a figurar no início do XX, na esteira de Euclides da Cunha, Alberto Torres, Oliveira Vianna, entre outros, inverteu essa equação que aqui chamo de “positivista”. Para eles, a realidade precede as ideias. Como a voz da razão no estudo do real, a ciência brasileira deveria estudar e compreender a natureza da nossa realidade e seus problemas em todas as suas dimensões. Daí a necessidade da sociologia, geografia, demografia, economia, antropologia, literatura, educação, arquitetura etc. Essas ciências “novas”, uma vez que terminassem seus estudos, poderiam contribuir para a solução dos problemas (de interesse público) que mantinham o Brasil “atrasado”. Foi esta a concepção de ciência que Rodrigues buscou para a História do Brasil. Um campo científico que investigaria e descortinaria os rumos do “real” processo histórico nacional, suas mazelas e problemas históricos, seus desafios atuais, assim como os projetos e avanços esperados para a nação brasileira.
Esta ciência seria composta por uma formação específica para os “novos” historiadores: teoria, métodos e historiografia. O plano no qual Teoria foi organizado o dividiu originalmente em dezoito capítulos, que podem ser separados em dois blocos: do primeiro ao oitavo capítulo, Rodrigues estabeleceu diversas reflexões de caráter teórico sobre a história: o desenvolvimento da ideia de história e seu estatuto científico (tal como identificado por ele nos EUA e produção historiográfica alemã recente), o problema das causas em história, a periodização, os diversos tipos de histórias, além de um capítulo sobre a “certeza histórica” (posteriormente excluído); e do nono ao décimo sétimo, expôs todo o seu entendimento acerca da metodologia da história, fontes e documentos, disciplinas auxiliares e as críticas exigidas ao trabalho do historiador.
O décimo oitavo capítulo, “A compreensão e síntese históricas”, é o encerramento da obra. Rodrigues reafirma a ideia central de fazer da história no Brasil uma ciência hermenêutica. Ali, resumiu também o que ele julgava necessário se desenvolver para superar o “atraso historiográfico” no país: seguir o que de mais atual e inovador havia no país: Capistrano de Abreu, Paulo Prado, Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Isto é, aqueles que tentaram, cada um ao seu modo, tematizar o povo brasileiro, colocando-o como agente de transformação histórica. Pautou-se sobre três traços fundamentais que, para ele, definiriam o historiador “de fato”, isto é, o especialista, o intérprete “responsável” da história: a reflexão teórica (formulação de conceitos/instrumentos heurísticos); novas metodologias desenvolvidas como resultado de pesquisas sobre novas fontes documentais; e a compreensão histórica (a interpretação sintética sob a forma narrativa).
A tomada de consciência acerca da “história da história” do Brasil, seus estágios precedentes e seu atual momento (e problemas), tornava-se, pois, parte central de suas argumentações e projetos. Rodrigues visou fornecer em Teoria um impulso decisivo para mobilizar uma ação renovadora na história no Brasil. Assim, para além da síntese entre reflexão teórica, lições metodológicas e compreensão (interpretação), cabe verificar também o fio condutor de sua narrativa, a partir do qual construiu o sentido para seus leitores. Pode-se identificar três movimentos no interior de Teoria da História do Brasil: 1) definição do que seria o novo e o velho em termos históricos no Brasil; 2) definição dos métodos com que trabalham os historiadores, como se manejam as fontes e as críticas possíveis de se fazer às mesmas em novas pesquisas; 3) justificativa da necessidade dessa renovação em uma apresentação narrativa da urgência da mesma para a devida compreensão do Brasil e seus caminhos. Configurava-se ali, simultaneamente, uma narrativa na qual Rodrigues temporalizava a própria ação renovadora que ele propunha. Isso explica o título da obra, Teoria da História “do Brasil”. Não se trata de uma teoria “brasileira” da história. Rodrigues defendia que as reflexões de caráter teórico estavam ausentes da bibliografia histórica brasileira contemporânea. Salvas as exceções por ele destacadas, casos individuais importantes, mas não modelares ou sistemáticos, nossa bibliografia histórica ainda se realizava a partir de (pre)conceitos que conduziam nossa historiografia aos erros de doutrinas “mortas” ou do esforço de corajosos e solitários pesquisadores. Para superar tais deficiências criticamente as reflexões teóricas deveriam ser incorporadas ao arsenal dos historiadores brasileiros redefinindo horizontes (nacionais), sistematizando revisões interpretativas, esforço que deveria ser encetado por um coletivo, ou um campo, de pesquisadores nacionalistas.
É importante, assim, entendermos o que Rodrigues entendia por conceito. Esse entendimento estava, como já mencionado antes, atrelado à sua apropriação de representantes (ou intelectuais largamente influenciados) do (ou pelo) idealismo filosófico da chamada escola neokantiana do sudoeste alemão, como Heinrich Rickert, Wilhelm Dilthey e Max Weber. Segundo Sérgio da Mata, Rickert diferenciava a ciência de outras formas de conhecimento, em termos da percepção da realidade, a partir da ideia de que a ciência elabora e opera conceitos para definir o real. Para José Honório Rodrigues, de modo muito semelhante, o conceito torna-se instrumento fundamental mas, em si mesmo, configura uma realidade dinâmica (pois histórica). Por essa razão, novas pesquisas e descobertas empíricas necessariamente levariam a reformulações conceituais e revisões interpretativas. Assim, diferentemente dos conceitos generalizantes das ciências da natureza, os conceitos históricos referem-se a realidades investidas de valor histórico. O historiador, então, não buscaria um princípio geral de funcionamento, mas a reconstituição das individualidades. Apesar disso, um conceito não precisa ser uma formulação exclusivamente individual, também podendo ser considerado uma síntese obtida à custa de esforço sistemático. O que nos deixa diante da questão do juízo de valor (seleção). Assim, quando Rodrigues falava em teoria ele aliava essa configuração conceitual às novas pesquisas e horizontes históricos, à revisão interpretativa, e ao engajamento às questões políticas e sociais contemporâneas.
Outro ponto que julgo valioso repousa no fato que Rodrigues apresentava aos brasileiros uma “história cruenta”. A sua compreensão do Brasil procurou afastar-se de ufanismos patrióticos, porém sem se desfazer de um projeto coletivo de nação. Seu nacionalismo, almejava ver o Brasil como uma das grandes potências modernas do mundo. Mas ao incorporar a violência ao processo histórico brasileiro, violência tradicionalmente apagada de nossos livros de história e de nossa identidade nacional, ao saber reconhecê-la como parte de uma formação social específica, ele acreditava fornecer um caminho para nos libertarmos de nossos próprios preconceitos. Saber das mazelas sentidas e sofridas por um povo “capado e recapado, sangrado e ressangrado”, em palavras apropriadas por ele a partir de Capistrano de Abreu, seria o primeiro passo para se fundar um Brasil novo. Um povo solidário e sobrevivente, humano, trabalhador, e nada “coitadinho”, tampouco “alegre por natureza”. Para ele, até então, nossa história fora escrita e realizada por segmentos de lideranças absolutamente despreocupadas com os rumos do povo, suas aspirações legítimas e seus interesses. Com o senso de público totalmente moldado pelo contexto familiar, os jogos da conciliação “pelo alto” ditaram os rumos e interpretações do país. Essa elite minoritária, conservadora, de valores patriarcais, escreveu e fez a história para si mesma, na qual a identidade nacional auxiliava na fabricação de um tipo nacional avesso à ideia de ruptura, de participação popular, e mesmo de povo (quase sempre visto como “a plebe”, “a ralé”, “a canalha”, “os ignorantes”).
Para José Honório, o liberalismo brasileiro seria fruto deste fenômeno conciliatório e excludente: elite branca e “educada”, conservadora ou reacionária, neurótica, supersuspeitosa, superagressiva e inflamada. A marca de lideranças como as da União Democrática Nacional (UDN), encabeçada por Carlos Lacerda: quando derrotados democraticamente, não aceitavam, apelando para todas as formas de complôs, conspirações, intrigas sobre fraudes eleitorais, para fazer valer sua indignação frente ao sucesso de outros grupos. Liberticidas e antidemocráticos, sua identidade se sustentava na violência e no ódio ao “outro”: fosse o nordestino, o miserável, o desempregado, desabrigado, mendigo, o menino de rua ou trabalhador. Nosso liberalismo se mobilizou por uma atitude “paranoica” de autopreservação e defesa intolerante de seus próprios interesses, muitas vezes alimentando a violência da repressão militar ou policial às manifestações legítimas de trabalhadores e populares (“vândalos” ou “baderneiros”), reclamando maior participação na vida política nacional; violência tragicamente naturalizada por estes mesmos atores.
A separação entre elite e povo figurava na base do que Rodrigues combatia. As ideias que a mantinham como regra também. E o fazia em defesa de um liberalismo totalmente diferente daquele que se estabelecera no país, pois profundamente inspirado no liberalismo estadunidense ou, ao menos, o liberalismo segundo Tavares Bastos ou Rui Barbosa: progressista, libertador, animado pelo senso de interesse coletivo, de bem comum e de um espírito de bem público. No entanto, para José Honório, a conciliação nunca se fez com o povo, mas por cima do mesmo.
Uma historiografia “nova” era vista, portanto, como parte necessária do “combate” contra os mandos e desmandos das “elites fratricidas”. Sua função seria educadora e libertária, avaliando os juízos acerca de nosso passado, limpando-os dos excessos e atualizando-os segundo demandas e interesses nacionais. Significava, por um lado, a construção de um campo científico para a história do Brasil. Campo confiável, profissionalizado e conduzido por especialistas. Ou seja, com novas pesquisas, novas metodologias, e, acima de tudo, as reflexões teóricas, esta ciência moderna poderia ter meios concretos de se proteger contra os usos e abusos do passado por motivos levianos no presente. Epistemologicamente garantidas as suas verdades, ou dentro dos seus rigorosos limites de possibilidades, suas convicções nacionalistas (de realização dos interesses e aspirações nacionais legítimas) tornariam possível o redimensionamento do passado e a ação no presente à luz dos fatos e do processo histórico brasileiro. Por outro lado, essa historiografia científica não se arvoraria em objetivismo ou imparcialidade estéreis, mas em um engajamento intelectual na luta contra o conservadorismo e o dissídio entre poder e sociedade, entre brasileiros, caminhando em direção ao nacional, a democracia e cidadania plenas.
Para José Honório Rodrigues, compreender historicamente as ideias conservadoras e reacionárias significava assenhorear-se das ideias que ensinaram aos brasileiros a temerem a mudança ou as reformas estruturais; e a acreditarem que quanto mais tudo muda, mais as coisas permanecem como estão. Para ele, somente assim, o povo brasileiro poderia crer na sua capacidade para ação e transformação: do Brasil como o país da eterna promessa de futuro à ação transformadora de construção do futuro do país. Havia “militância”, ou “combate”, em sua atividade historiográfica, na qual o cientista e o cidadão convergiam. Dialeticamente, pensava ele, realidade e história deveriam se encontrar e se modificar reciprocamente. Esta realidade social se altera e alteram-se igualmente os sentidos e interpretações sobre o passado. Em que pesem as evidentes limitações de suas alternativas, projetos e mesmo do seu nacionalismo desenvolvimentista (típico da intelectualidade atuante na década de 1950), podemos dizer que suas questões e a natureza ética de suas reflexões sobre história e historiografia, sobre vida e história, parecem gozar de renovado interesse para a atualidade.
Bruno Leal: Na década de 1940, José Honório Rodrigues frequentou a Universidade de Columbia. Depois, já de volta ao Brasil, trabalhou no do Instituto Nacional do Livro, na Biblioteca Nacional, entre vários outros espaços intelectuais brasileiros de enorme importância. Que peso tiveram esses experiências fora do ambiente acadêmico em sua produção historiográfica?
Andre de Lemos Freixo: Sua trajetória nestes espaços institucionais foi bastante importante, em parte no que toca à sua historiografia, pois boa parte de seus problemas e questões foram desenvolvidos no interior das mesmas e com pesquisas possibilitadas, materialmente, por elas. Em Columbia, mas igualmente por outras instituições estadunidenses por onde ele passou na sua viagem de um ano aos EUA (1943-1944), Rodrigues conheceu uma estrutura institucional, acadêmica e universitária que ele jamais havia visto. No Brasil não existia nada semelhante nas décadas de 1930 e 1940. Nossas universidades estavam ainda em seus primeiros anos de existência. E ele voltou dos EUA decidido a lutar por aquele tipo de estrutura para o Brasil, comprando brigas e acendendo polêmicas com a incipiente esfera universitária brasileira, logo taxada por ele de ultraconservadora. Seu projeto científico começou a ser gestado nas instituições nas quais ele trabalhou. Como Diretor da Seção de Obras Raras e Publicações da Biblioteca Nacional (BN), Rodrigues trabalhou muito, editou a Série Documentos Brasileiros e os Anais da BN, e viajou pela Europa como representante desta instituição, em 1950. Ele chegou a idealizar um Instituto de Pesquisa Histórica que, originalmente, deveria ter sido criado no interior da Biblioteca Nacional (no Rio de Janeiro). Posteriormente, chegou a escrever um livro, “A Pesquisa Histórica no Brasil: sua evolução e problemas atuais” (1952), no qual justificava a necessidade de formar uma nova geração de historiadores em um lugar institucional específico, espécie de escola de altos estudos, para formação de quadros historiográficos no país – com o foco em pesquisas, arquivos e arquivística, biblioteconomia etc.. A última seção deste livro é um programa detalhado de como funcionaria esse tal Instituto, que deveria ser público e autônomo, como em instituições congêneres dos EUA, França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Holanda etc.. Era sua tentativa de consolidar e institucionalizar o seu projeto de uma ciência da História do Brasil, mas que nunca saiu do papel. Os caminhos da história científica no Brasil foram outros.
Bruno Leal: Falando nos caminhos da história científica no Brasil, nos últimos três anos, pelo menos, a questão da regulamentação da profissão de historiador ganhou novo fôlego no Brasil. O projeto de lei, de autoria do Senador Paulo Paim (PT-RS), está agora muito próximo de ser aprovado no Congresso Nacional. No início, houve muita desconfiança. Parte da imprensa, viu o projeto como uma tentativa de “reserva de mercado”. Entre os próprios historiadores e instituições de pesquisa também houve quem o visse com reservas. Qual a sua opinião sobre a regulamentação de nossa profissão? Por que esse tema ganhou novo fôlego agora?
Andre de Lemos Freixo: É curioso. Como eu disse antes, José Honório Rodrigues lutou pela especialização e profissionalização da historiografia no Brasil entre as décadas de 1940 e 1970. Evidentemente, seu projeto era imenso, quase megalomaníaco, e visava erigir um campo científico da história chamado historiografia brasileira: isto é, uma ciência da História no (e do) Brasil. Uma ciência altamente especializada e institucionalizada, autônoma, fora da esfera de influência dos grupos mais elitizados, que ele reputava como conservadores, instalados no interior da incipiente Universidade brasileira. Seu projeto tinha a ver com o nacionalismo em voga no período, mas igualmente com controle, autoridade e legitimidade para definir o que seria ou não um texto histórico e como esse texto poderia contribuir para compreensão da realidade histórica nacional – que era uma tópica importantíssima para Rodrigues e sua geração.
Hoje, o cenário é bastante diverso, mas esse tipo de debate reassume centralidade. Pessoalmente, não me oponho a essa regulamentação. Penso ser um resultado quase necessário do crescimento de nossa “Área” (que hoje é muito diversificada), e da multiplicação de especialistas em nível de mestrado e doutorado. Tenho apenas uma desconfiança sobre o que essa regulamentação profissional pode, de fato, assegurar para nosso ofício frente aos horizontes históricos que temos diante de nós contemporaneamente – radicalmente diferentes daqueles que José Honório, por exemplo, mas todos os nacionalistas, viram se encerrar em 1964. Há certa dose de corporativismo envolvido no processo, mas eu penso que ele é parte, e uma bem pequena (e até salutar) de um problema muito maior e mais complexo, que é: qual o lugar das humanidades no mundo de hoje? Frente a isso, qual o lugar dos historiadores nesse mundo? Desconfio que regulamentar nossa profissionalização não resolverá esse problema que, a meu ver, é absolutamente decisivo. Quer dizer, vivemos um período crítico nesse sentido, no qual as políticas públicas referentes à educação são decididas por políticos-profissionais (gestores e administradores) levando em conta a eficiência das mesmas a partir de dados frios, muitas vezes maquiados, e chamados de “objetivos”. O fenômeno é global. O Brasil já está nesse movimento de priorizar o crescimento econômico, mensurado via PIB, há algum tempo. Em termos educacionais, isso promove uma espécie de miopia: só se pode ver e valorizar as chamadas competências lucrativas; a educação caminha a largos passos para um adestramento economicamente produtivo; isso num país extremamente desigual no qual educação e cultura nunca foram valores efetivos, e fatores de democratização, mas privilégios. Estamos nos distanciando da ideia humanística de formação crítica e compreensiva, do desenvolvimento da empatia, por exemplo, para as diferenças, frente aos marginalizados. Estamos valorizando absurdos como meritocracia, entre outras coisas. Até agora valores humanísticos sempre justificaram ou, pelo menos, ampararam a relevância da História e dos historiadores no mundo, seja como saber escolar e campo de pesquisas ou qualquer outra coisa. Se o letramento histórico pertence a esse rol de capacidades humanísticas que desaparecem dos horizontes de nossa contemporaneidade, qual o papel dos historiadores em meio a isso tudo? Preocuparmo-nos com nosso quinhão é importante, claro, não nego isso de modo algum. Regulamentar a profissão é importante em um mundo no qual essa profissão possui uma importância e um lugar social claramente definidos. Mas essas definições são também históricas e carecem sempre de renovadas respostas acerca de sua atualidade para um mundo mais democrático. Não deveríamos tomar tais posicionamentos como sempre dados, seguros, como dados inquestionáveis e autoevidentes, isto seria a-histórico da nossa parte. Será que não precisamos retomar os debates amplamente sobre qual nosso lugar no mundo de hoje? E qual o lugar e importância das humanidades, nesse sentido? Se as humanidades desaparecerem como valor de nossa vida e dos horizontes das gerações atuais e que virão, temo não haver espaço para o historiador e o professor de história, para a historiografia especializada, para o historiador nos arquivos, nos institutos de pesquisa e patrimônio etc., seja ele um profissional regulamentado ou não. O problema é muito mais grave e estrutural e nos conclama a pensarmos e formularmos novos projetos e proposições nesse sentido, em diálogo com a sociedade mais ampla, não apenas ente nós. Algo que sem análises teóricas muito intensas, temo, estaremos em breve diante de um cenário bastante adverso ao tipo de trabalho que desenvolvemos.
Bruno Leal: Ainda dentro dente universo, vivemos, atualmente, um momento particular no que se refere a “popularização” da história no Brasil. Revistas, redes sociais, blogs e livros, entre outras mídias, atendem uma demanda social cada vez maior pela história. Como você interpreta esse momento? Como a historiografia brasileira pode se beneficiar disso tudo?
Andre de Lemos Freixo: Eu penso que sempre houve essa diversidade. Nós, os historiadores formados (acadêmicos), talvez tenhamos nos acostumado demais a pensar e avaliar positivamente apenas aquelas historiografias produzidas pelos “grandes nomes” ou “grandes instituições”. Por essa e por outras que julgo uma história da historiografia teoricamente orientada tão necessário. Para que possamos conhecer muitas outras possibilidades históricas e historiográficas. Mark Salber Phillips, historiador da Universidade de Carleton (Canadá), assevera que muito do que tem sido escrito sobre historiografia demonstra um tipo muito peculiar “present-mindedness” que estreita nossa compreensão das tradições anteriores e enaltece o profissionalismo de nossa própria época com o falso senso de sua própria distinção e realizações. Os próprios historiadores muito frequentemente têm falhado a sujeitar seus pressupostos sobre história à modéstia da reflexão teórica e historiográfica. Assim, penso que de formas muito distintas sempre houve variedades de formatos históricos convivendo juntos. Divulgadores, histórias populares, cinema, teatro, rádio, educação… Há incontáveis possibilidades. Já há alguns anos temos assistido aos avanços da técnica e dos meios de divulgação de informação histórica. A história digital e a história pública têm feito avanços nesse sentido. Mas isso não significa que apenas agora estamos diante da popularização da história. Hoje temos, talvez, uma massificação maior. O horizonte histórico das diferenças nos lança à busca de novas vozes. Cada pessoa hoje se julga “digna” de ser histórica e historicizável. Isso gera maior visibilidade à pluralidade de atores e agentes, para o bem e para o mal, claro. A democratização do acesso à internet e das redes sociais, blogs, entre outras coisas também ajuda. Mas há estudos que indicam que a popularização da história já existe desde, pelo menos, o século XIX. Sobre isso, há o livro Popularizing the national pasts: 1800 to the presente, organizado por Stephen Berger, Chris Lorenz e Billie Melman.
Bruno Leal: No final dos anos 1970, o historiador Lawrence Stone falou em um “retorno da historiografia” para se referir a uma postura intelectual que estaria se sobrepondo ao modelo estruturalista da história. Esse “retorno”, baseado em uma lógica interdisciplinar, viria recuperar um laço com a literatura e com a arte há muito tempo perdido ou minimizado. O crescente interesse dos historiadores pelo grande público, como falamos anteriormente, seria um indicador de que Stone estaria certo? Ou estamos falando aqui de coisas essencialmente diferentes?
Andre de Lemos Freixo: Me parece que são coisas distintas. No caso do artigo de Lawrence Stone, trata-se de uma interpretação sobre o surgimento da “nova história” (Nouvelle Histoire) nas academias francesa e anglo-americana. De certo modo, os historiadores que ele cita no chamado “retorno da narrativa” podem ser relacionados ao projeto historiográfico encabeçado por Pierre Nora e Jacques LeGoff na década de 1970: novos problemas (ou questões), novas abordagens (ou métodos), novos objetos (a partir de novas fontes). Como uma nova onda de estudos e estudiosos que colocaria em xeque a historiografia de pretensões eminentemente científicas (como a história quantitativa, a serial e a socioeconômica) das duas décadas anteriores. Havia, assim, uma preocupação enorme de Stone em diferenciar o que ele identificava como “novas” narrativas históricas das histórias narrativas “tradicionais” – aquelas que boa parte da historiografia social das décadas de 1950 e 1960 demonizou sob a pecha de “positivistas” ou de história événementielle. Essa precisou se tornar a “história factualista”, narrativa dos fatos políticos e dos fastos dos “grandes homens”, também muito associada à história política (leia-se nacional e oficial) oitocentista, pejorativamente, como forma de evidenciar o velho, a “velha historiografia”, e abrir espaço para o “novo” modelo historiográfico chamado de estruturalista. Assim, o “retorno” de que fala Stone precisava se cercar de cuidados para falar de narrativa. Se ela “voltava”, precisava ficar claro que isso não implicava em um retrocesso em termos epistemológicos (ainda que seu tom fosse de alguma desconfiança frente as novidades), de modo que se a narrativa retornasse, era preciso frisar que ela deveria estar submetida a uma historiografia sofisticada, absolutamente consciente de suas condições de possibilidade, ainda que profissionalizada e especializada e de pretensões científicas.
Se tirarmos isso, creio que se pode concordar com Roger Chartier de que Lawrence Stone apenas “choveu no molhado”, por assim dizer. Quer dizer, a narrativa nunca desapareceu do trabalho dos historiadores, mesmo quando a influência do estruturalismo era enorme. Basta que pensemos, à luz de Paul Ricouer (no primeiro volume de Tempo e Narrativa), sobre a excelente forma narrativa de Fernand Braudel em La Mediterranée et le monde méditerranéen à l’époque de Philippe II.
O movimento da Nova História foi enormemente influente no Brasil. Nas décadas de 1980 e 1990, e no início do século XXI, acho que é seguro dizer, as modalidades possibilitadas pelas historiografias francesa e anglo-americana, com grande relevância também da micro-história italiana, definiram a face de nossa historiografia especializada no interior das universidades (mas não apenas) e dos programas de pós-graduação em História.
As pretensões dos historiadores se tornaram mais largas, inclusive a de atingir um público cada vez maior. Mas isso se deve a existência desse público e do amplo interesse por história na esfera pública. A procura por cursos de História em universidades públicas e particulares cresceu vertiginosamente entre fins da década de 1990 e inícios do século XXI aqui no Brasil. Isso nos oferece um quadro bem claro que o interesse por história existe, embora hoje, talvez, esse interesse não acompanhe necessariamente o que os historiadores profissionais produzem. Mas isso é um outro problema.
Mas penso que isso tudo tem pouco a ver com a forma “narrativa”. Como eu já falei, tem a ver com a diversificação que caracterizou nossa historiografia nas décadas de 1980 e 1990 e ampliação da “Área” que ocorreu nos últimos quinze anos, aproximadamente. Outros atores e agentes entravam em cena pela via da historiografia o que despertou um novo interesse pela historiografia. Além disso, o público leitor estava sedento por história e novos sentidos para o Brasil que buscava novas possibilidades diante da nossa Abertura (1979-1984): empoderamento para novos grupos e suas identidades, surgimento de novas culturas urbanas; gênero, em geral, com grande ênfase sobre as mulheres, e as minorias LGBT; afrodescendentes; indígenas, entre tantos outros. A própria possibilidade da empatia dos jovens estudantes de história (e do grande público) com essas novas personagens é um fator a ser levado em conta e passou a ser um elemento presente mesmo nos trabalhos que tematizavam personagens mais “tradicionais” (como D. Pedro II, por exemplo) por ângulos menos solenes, a partir de aspectos mais humanos de suas vidas privadas. Hoje percebemos que um grande filão editorial é a história. E as biografias seguem bem de perto. Isso tem a ver com uma concepção de agência e de transformação da história por pessoas, indivíduos, ou minorias quase sempre representadas sob as sombras dos “grandes” e “poderosos”. Uma ideia poderosa hoje em dia, especialmente no Brasil dos últimos treze anos.
Agora, quando só o que interessa é vender, a coisa muda de figura. E temos histórias escritas por um rol bastante ampliado de pessoas, que podem ser jornalistas, arquitetos, economistas, políticos, politólogos, historiadores etc. Isso inclui desde best sellers de qualidade inquestionável, aos de qualidade muito questionável, passado por livros medianos, chegando ao fundo do poço (se é que esse poço tem fundo) dos absurdos guias “politicamente incorretos” e congêneres por aí. Vamos dizer o que, que não é história? Por que? Porque história é só o que os historiadores profissionais escrevem? Por um lado, claro, tendo a pensar desta forma. Mas não tenho mais tanta certeza quanto a certas convicções da “torre de marfim”. É certo que história vende e vende muito: desde livros caríssimos, às revistas de bancas de jornal (algumas delas excelentes!). No frigir dos ovos, há diferenças qualitativas em jogo, até mesmo questões de virtudes epistêmicas, de honestidade intelectual, éticas em jogo, inclusive, mas toda história escrita pode ser apropriada para fins diversos. O campo pode intervir até certo ponto nessa avaliação, mas não creio que haja muito que se possa fazer. A procura imensa por história é, em parte, uma busca por esse tipo de legitimidade científica, ou apenas deste rótulo, para fins diversos. Mas não creio que haja controle (e método e ciência pressupõem isso) nesse sentido. Acredito que o lugar dos historiadores no mundo da diversidade absoluta precisa ser repensado, e com ele os critérios de rigor, cientificidade (que não é a mesma coisa que ciência) etc., a partir do interior das humanidades, como forma de nos reinserirmos no mundo com o qual dialogamos e do qual comparticipamos.
Por outro lado, eu acho que o mercado editorial não deveria ser nossa única régua para medir o grau de interesse por textos de história, ou por passado. Na realidade, é até preocupante acompanhar os lançamentos de alguns historiadores, excelentes pesquisadores, quando se entregam aos delírios do mercado, como se houvesse uma meta final: ser lido por muitas pessoas independentemente do que for. Não há nada de errado em querer ser lido, mas julgo que isso deve ter limites. Também não acho que todos devam ser historiadores profissionais para lerem textos herméticos. Mas um meio termo precisa ser encontrado. Muitas vezes o interesse mercadológico, ou de “engorda” de curriculum lattes, não está nem um pouco preocupado com reflexões de natureza mais rigorosa, que complexifiquem, aprofundem e problematizem questões importantes como de onde vem nosso interesse por história? Ou ainda o que define um texto de natureza histórica? Seriam apenas questões de ordem epistemológica? Ou há mais em jogo? Questões cujas respostas quase sempre estão pressupostas, ou de respostas aparentemente autoevidentes, sobre a nossa relação com o tempo e a temporalidade (nem todo o tempo é tempo histórico), sobre o que define (quando e como) as fronteiras entre passado e presente, sobre historicidade(s), entre muitas outras questões.
Então eu lembro daquele verso/estrofe do poeta Cazuza (“Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades…”) quando surgem textos (e são narrativas, sintéticas) de história absolutamente “quadrados” do ponto de vista formal, teoricamente poderiam ter sido lançadas há décadas atrás! Será que nada do que foi feito no mundo após Metahistory (1973)? Esse texto, que já é datado e muito criticado fora do Brasil foi lido? Não houve nenhuma consequência teórica efetiva para a escrita da história após as reflexões da chamada virada linguística? Da Hermenêutica? Quer dizer, se se visa atingir a um público específico, este precisa crer (e continuar a crer) que a História (sim, com agá maiúsculo) é uma única coisa imutável? E a historiografia dedica-se a escrevê-la tal como ela “é”? Se sim, não situar debates teóricos relevantes ou ignorá-los sobejamente em nossa prática historiográfica, sem repensar o que há de mais fundamental em história (historicidade e temporalidade), ou o lugar da historiografia frente aos dilemas da contemporaneidade, é uma atitude mais do que conservadora, você não acha?
Mas, novamente, penso ser isto tudo parte de um problema mais amplo. O movimento, então, precisa ser mais (e muito mais) teórico, filosófico e crítico; um movimento que, ao que tudo indica, é cada vez mais necessário diante dos pragmatismos, imediatismos, moralismos, doutrinações e seus muitos usos e abusos da história na era do “real time”, do consumismo desenfreado (também de história e de passado) e da nova “realidade virtual” que são as redes sociais: qual o lugar das humanidades no mundo de hoje?

Andre de Lemos Freixo é Doutor em História (PPGHIS/UFRJ, 2012), Mestre (PPGHIS/UFRJ, 2008) e Bacharel com Licenciatura (UFRJ, 2006) em História. É Professor Adjunto no Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Tem como áreas de interesse: História da Historiografia Brasileira, História do Brasil Republicano, Teoria e Filosofia da História. Também é coordenador do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM/UFOP)..
Fonte: Café e História

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